Meu humor


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    Memórias de uma mãe cadeirante
     


    O que te silencia?

    Quanto menor é o meu barulho interno, maior é o silencio que preciso para conseguir me ouvir.

    Entre as particularidades de se viver com uma deficiência, está a condição de quase nunca estar sozinha.

    No trabalho, como todo mundo, estou sempre cercada de gente. No carro, minha assistente está ao meu lado dirigindo, enquanto eu geralmente estou retornando recados deixados no meu celular.  O transito ocupa tanto tempo de vida do paulistano que acabamos criando metodologias para dar significado produtivo a esse período passado dentro do carro.

    Em casa, depois que coloco as crianças para dormir e a casa se aquieta, minha assistente está a postos. Ainda que seja adoravelmente discreta e habilidosa em identificar os momentos em que deve se afastar, eu sei que ela está ali a poucos metros. Isso é ótimo. Me sinto segura em poder contar com sua ajuda, assim que precisar. Por outro lado, aquela solidão necessária à reflexão, ao encontro consigo mesmo, não é algo que aconteça naturalmente na minha vida. Se eu quiser ficar sozinha, preciso produzir esses momentos.

    Fui trabalhar uns dias numa ilha. Um lugar geograficamente solitário. O incrível foi só ter me dado conta disso no dia de ir embora. Foi inevitável elaborar uma infinidade de conexões metafóricas entre a minha história, aquele lugar, as coisas que estou vivendo nesse momento, o significado daquele trabalho, os valores individuais e coletivos, o movimento diferente produzido por cada corpo, por cada pensamento em todos os lugares.

    Conheci pessoas que nasceram e jamais saíram dali. Não há a cidade vizinha. Não existe transito. E quase não vi noite. Jantávamos à luz do dia. O entardecer acontecia às 21h30min. Tudo tão longe e tão ao alcance das minhas mãos. Meus filhos, meus amigos, minha família, meu trabalho, todas as coisas que aprendi e todas as que ainda tenho para aprender.

    Me desculpe por esse tempo de ausência. A viagem concreta foi de uma semana, mas internamente durou um mês.



    Escrito por Flavia Cintra às 12h51
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