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    Memórias de uma mãe cadeirante
     


    As vezes a gente precisa de ajuda. Outras vezes a gente ajuda quem precisa.

    Eu via tudo por um ângulo de baixo para cima. Sentia medo, ansiedade, tristeza e dor. Deitada na maca de uma ambulância da prefeitura de Santos, com minha mãe ao meu lado, cheguei à AACD. A primeira imagem foi de um monte de gente circulando em cadeiras de rodas. Muitos. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos.  Em cima da minha maca de rodinhas, emocional e fisicamente em farrapos, senti pena daquelas pessoas que estavam ali porque nunca mais poderiam andar. “Comigo vai ser diferente” – eu pensava.

    Enfrentávamos uma situação financeira super delicada e minha mãe se preocupava com o custo do tratamento de reabilitação. Depois de uma avaliação socioeconômica criteriosa, recebemos a notícia da gratuidade. Nossa, que alívio!

    Foram 8 meses. Tentativas, lágrimas, exercícios no tablado, novas tentativas, alegrias, aprendizado, cuidado, exercícios na água, terapia com psicóloga, descobertas, desmaios, raiva, medo, exercícios no chão, perguntas esclarecidas e perguntas sem respostas.

    Não havia internet, as informações eram preciosas e restritas a poucos. A AACD era o meu porto seguro. No dia da alta, achei que fosse morrer. Fiquei sem chão, não podia imaginar minha vida sem o cuidado daquelas pessoas.

    Saí de lá de cabeça erguida, tocando minha própria cadeira de rodas, com vontade de voltar a tocar minha própria vida. Já que tanta gente ali acreditava em mim, eu tinha que fazer por merecer. Eu tinha que fazer minha mãe sentir orgulho de mim outra vez. Eu tinha que sentir que minha vida valeria a pena. Rasguei a lista de coisas que não podia mais fazer e comecei a escrever outra: a das possibilidades. Ainda estou escrevendo essa lista e, sempre que a AACD me chama, eu vou lá contar essa história para as pessoas que estão chegando do mesmo jeito que eu cheguei há 18 anos.

    Amanhã e sábado é dia de Teleton. Eu tenho obrigação de ajudar.



    Escrito por Flavia Cintra às 14h21
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    Fragmentos de tinta e de felicidade

    Cada vez que venho aqui, venho disposta a registrar um fragmento de vida, um suspiro de emoção, algum sentimento sincero. Ao mesmo tempo em que tenho vontade de compartilhar isso com algumas pessoas que se interessam em saber o que tenho a dizer, é como se eu também estivesse tentando capturar essas sensações e congelá-las para mim mesma. Escrevo muito mais para mim do que para você. E tenho consciência de que, as vezes, caio no lugar comum. Não me importo. Aliás, durante muito tempo na minha vida, persegui a idéia de ser comum. Comum na minha cadeira de rodas.

    A faxineira estava tentando tirar marquinhas vermelhas das laterais das camas brancas das crianças. São lascas de tinta da minha cadeira. No escuro do quarto, depois que adormecem, as vezes eu erro na manobra e raspo a cadeira na madeira branca. Quando meu filho viu a moça esfregando o pano, disse: “não é para tirar os beijos que a mamãe deu na minha cama!”

    Eu não seria capaz de elaborar metáfora mais precisa que essa.



    Escrito por Flavia Cintra às 20h39
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    Outro daqueles de tirar o fôlego...



    Escrito por Flavia Cintra às 22h08
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