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    Memórias de uma mãe cadeirante
     


    Dia das mães na Argentina

    Na semana do Dia das Mães, meu amigo Jairo Marques me pediu para escrever alguma coisa para publicar no seu blog. Fiz uma carta para ele, mas pretendia publicá-la aqui depois. Acabei esquecendo.

     

    Agora eu tive a surpresa de saber que esse texto foi traduzido e publicado no http://superaccionargentina.wordpress.com/, pois na Argentina o Dia das Mães é comemorado em outubro. Adorei me reler em espanhol e confirmar que mães sentem e falam numa língua que é universal. Vale a pena visitar o blog dos nossos amigos argentinos.

    Deixo aqui o texto em português, que tirei do arquivo do http://assimcomovoce.folha.blog.uol.com.br/arch2010-05-01_2010-05-31.html



    Escrito por Flavia Cintra às 17h17
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    carta para o Jairo - maio/2010

    Jairo,

    Até pouco tempo atrás, eu não imaginava que você me lesse e fiquei orgulhosa só de saber que você conhecia o meu blog. Sou sua fã, leio sempre tudo aqui e só te admiro cada vez mais. Nessa semana das mães, você se superou a cada post. Me emocionei, dei risada, senti raiva, angustia, afinidade, carinho e borboletas na barriga.

    Sou sua fã, faço parte da sua Matrix, mas tem uma única coisa que eu tenho e você não tem. Eu sou mulher. É maravilhoso ser mulher porque, com todo o meu respeito e reconhecimento aos pais, só as mulheres podem ser mães. E ser mãe é a melhor coisa do mundo!

    O dia mais feliz da minha vida foi o do nascimento do Mateus e da Mariana. Fiquei grávida sem planejar, depois dos 30, tetraplégica e de gêmeos. Minha gravidez “de alto risco” foi um período saudável, tranquilo, emocionante e inesquecível. Eu amava minha barriga cada vez mais redonda e as sensações de ter meus bebês crescendo, se mexendo, se preparando para virem ao mundo.

    Primeiro veio o Mateus, às 7h30. Chorou forte, alto, sem perder o fôlego. A Dra Miriam me deixou tocá-lo por um minuto, antes de entregá-lo ao pediatra. Naquele momento, nos olhamos nos olhos e o mundo parou. Tenho esse instante congelado na minha lembrança. Foi a emoção mais forte que já senti na minha vida. Eu não sabia que era capaz de amar tanto. Mas, e a Mariana? Estava a caminho...

    Mariana nasceu às 7h34min. Muuuito tempo depois de Mateus. Esses quatro minutos foram a espera mais longa que já experimentei até hoje. Eu não sabia se meu choro era de felicidade por saber que Mateus estava bem ou se era de medo de alguma coisa não dar certo com a Mariana.

    A Dra Miriam narrava tudo. Dizia “estou tocando o bumbum dela...”, “ela está vindo...”, “falta pouco...”, “bem-vinda, Mariana!”. Mas, ela não chorou. Deve ter demorado uns cinco segundos para chorar. E esse foi o momento de medo mais forte que eu já senti. Esses segundos duraram uma eternidade, mas ela finalmente começou a chorar. Chorar não, ela começou a gritar! Nasceu com pulmões invejáveis – e é assim até hoje. Mas, o pediatra a levou rápido e eu não pude vê-la naquela hora. Fiquei aflita, angustiada, eu queria a minha filha! Cadê a minha filha? Tragam a minha filha!

    Antes que a Dra Miriam terminasse de fechar os pontos da minha cesárea, o pediatra veio com os meus dois pequenininhos: “Parabéns, mamãe. Eles estão ótimos. Estão tão bem que vão para o quarto com você!”

    Havia uma expectativa de precisarem ir para a UTI por serem prematuros. As palavras do médico me deram o céu. Eu transbordava amor e felicidade. E esse amor não para de aumentar. Passei 33 semanas me preparando para dar à luz. No dia 02/07/2007 foram eles que me deram à luz. Eu (re)nasci. Nunca mais serei a mesma: eu sou mãe. Não há nada que me orgulhe mais que ser a mãe do Mateus e da Mariana.

    Me preparei de todas as formas possíveis para garantir aos meus bebês o cuidado, a logística e a estrutura necessária, sabendo que eu precisaria de ajuda para suprir as limitações de movimentos que a minha deficiência me impõe. Mas, desde cedo, sempre soube que ser mãe não se resume no desempenho de tarefas físicas. O importante era que eu garantisse que tudo funcionasse como eu achava que deveria funcionar. Então, enquanto eu amamentava um bebê a babá trocava o outro.

    Eu não conseguia dar banho sozinha, mas acompanhava cada movimento, cuidava da temperatura da água, das roupinhas, dos horários, das brincadeiras, dos estímulos, das consultas médicas, do cardápio, etc. Eles foram crescendo e ganhando independência de movimentos. Na medida em que iam ganhando essa independência, ia aumentando a minha autonomia no cuidado deles.

    Agora eles estão com quase três anos e temos uma vida movimentada, barulhenta, cheia de brincadeiras, alegrias, surpresas, emoções e soluções. Minha cadeira de rodas faz parte do cenário, mas o protagonismo está na nossa relação.

    Eles já sabem que a mãe é cadeirante e começam a compreender as implicações disso. Outro dia vieram me contar que no parque onde sempre vão não tem rampa para chegar no gira-gira. Eu nem estava com eles nessa hora, eles perceberam isso sozinhos e ficaram indignados.

    Como integrante da sua Matrix, Jairo, há tempos compartilho da missão de “dominar o mundo”. Mas, agora essa meta assumiu proporções muito maiores, pois estou falando do mundo em que meus filhos vivem e vão continuar vivendo quando eu não estiver mais aqui. Eu quero um mundo mais feliz. Porque meus filhos não serão felizes se o vizinho não for. Não terão segurança, se o coleguinha não tiver. Não terão oportunidade de aprender com as diferentes descobertas dos amiguinhos da escola, se esta não for inclusiva e aberta para todos.

    Nós temos pressa. É muito bom ver tantas realizações, transformações, conquistas... mas, ainda falta muito. Todas as noites, nós três rezamos juntos:

    “Anjinho da guarda,

    Meu bom amiguinho,

    Me leve sempre

    Pelo bom caminho.”

    ...e agora continuo com você, Jairo:

    Que o caminho seja bom e justo, mas também coletivo. Que não nos falte inspiração, criatividade e energia para avançar um pouco mais a cada dia. Que possamos “dominar o mundo” com gentileza, respeito e amor. Amem.

    Beijos, com carinho e admiração

    Flávia



    Escrito por Flavia Cintra às 17h16
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    Inspiração para melhorar o dia. Adorei!



    Escrito por Flavia Cintra às 16h20
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